16.7.10

Canteiro de Obras



Parei um moto-taxi aleatóriamente na esquina e falei até onde queria ir, ele disse que me conhecia, falou o nome de metade da minha família e me levou de graça até o meu destino: o prédio mais alto que está sendo construido na cidade.
Entrei na parte de baixo daquele esqueleto de concreto e ferro e logo vesti meu capacete branco, peça fundamental de segurança num canteiro de obras. Depois de uma breve conversa com engenheiros e encarregados, algumas contas, umas explicações sobre arquitetura, fundações e tipos de estruturas finalmente ouvi a frase tão esperada: pode subir.
Caminhei até o guincho, ou elevador de carga, aquela gaiola de ferro que do lado de fora do prédio transporta material e pessoas. Através do fundo de tela vi a cidade diminuir, e também diminui diante dos 24 andares que transpus, assitindo o chão ao longe se transformar num tapete cor de cimento.
Do alto, tinha Castanhal aos meus pés, com um campo de visão tão imenso que se perdia no horizonte. A estátua do Cristo era um mero esforço da visão, o lago do Iberapuera relusia ao longe o brilho do sol, o Estádio Municipal destacava-se pelo verde do gramado e a pista de asfalto escuro seguia até muito longe como um caminho que separava os muitos telhados.
Por dentro do prédio muitos operários assentando tijolo, chapiscando, rebocando, desempenando o piso grosso de cada um dos apartamentos que custarão em média 300 mil reais. Desci todos os andares pela escada, pra ver o tijolo aparente, as instalações elétricas, o ferro nu, ainda sem o croncreto e tentei imaginar que dentro de poucos meses crianças estarão ali correndo, mulheres farão comida naquela cozinha e homens assistirão tv tendo como vista da sala a cidade que aos poucos se verticaliza.
Ver um prédio daquela dimensão sair do chão é realizador, não pelo dinheiro investido, mas pela realização do homem que a milhões de anos constrói sua toca, que virou cabana, que virou casa, que virou edifício. É bonito pela evolução da técnica, da ciência, do aprendizado.

10.7.10

Carta aberta do movimento contra o infanticídio Indígena


Estamos vivendo um momento de profunda mudança em nossa cultura e estilo de viver porque vivemos hoje um novo tempo. Já não estamos confinados em nossas aldeias condenados ao esquecimento e a ignorância. Hoje não somos mas meros objetos de estudos, mas sujeitos, protagonistas de nossa própria história adquirindo saberes e conhecimentos que valorizam a vida e nossa cultura. Somos índios, somos cidadãos brasileiros, vivendo na cidade ou na aldeia não abandonamos a riqueza da nossa da nossa cultura e julgamos que somos plenamente capazes de distinguir o que é bom e o que danoso á vida e á cultura indígena. Desde já assumimos a responsabilidade de nosso destino e de fazer escolhas que contribuam para o nosso crescimento. Nós nos recusamos a ser meros fantoches nas mãos de organizações científicas e de estudos. Chega de ser mos manipulados por organizações governamentais, portanto manifestamos nosso repúdio á prática do infanticídio e a maneira irresponsável de desumana com que essa questão vem sendo tratada pelos órgãos governamentais. Não aceitamos os argumentos antropológicos baseados no relativismo cultural. O recente caso da menina Isabela alcançou tal repercução na mídia que de imediato nós vivenciamos a dor e angustia da sua família, parecia que Isabela era alguém da nossa própria família, toda a nação brasileira se comoveu e encheu de indignação com tamanha violência, acompanhamos e exigimos justiça a partir de então. Mas nós nos perguntamos: Será que a vida de Isabela tem mais valor do que daquelas crianças indígenas que são cruelmente enterradas vivas, abandonadas na mata, enforcadas por causa de falsos temores e falta de informação dos pais e da comunidade? Não.
Não aceitamos infanticídio como uma prática cultural justificável, não concordamos com a opinião equivocada de antropólogos que tem a pretensão de justificar esses atos e assim decidir pelos povos indígenas, colocando em risco o futuro de toda uma etnia.
O direito á vida é o direito fundamental de qualquer ser humano na face da terra, independentemente de sua etnia ou cultura. Nosso movimento espera que a lei maior do nosso país seja respeitada, isto é, independente de etnia, cor, cultura e raça toda criança goze do direito á vida.
Pedimos que os órgão competentes não mais se omitam a prestar socorro ás mães e crianças em risco de sofrer infanticídio.
Mato Grosso, Junho de 2008
Movimento contra infanticídio indígena
Professor Édson Bacari