24.3.13

Manifesto #Rede


São graves os problemas relacionados ao desgaste e ao descrédito da política, dos políticos e do sistema de representação, sobretudo porque afastam grande parcela da sociedade das decisões públicas, quando não a leva ao alheamento e total indiferença às decisões políticas. Permanecem hegemônicas as velhas práticas políticas que vêm do colonialismo, do populismo, do racismo, do totalitarismo e outras formas de dominação e corrupção que ainda configuram uma cultura arraigada e difícil de mudar. O processo de construção da nossa república ainda está incompleto.
Mesmo sendo da natureza dos partidos políticos o confronto de posições e projetos e a disputa legítima pelo poder de Estado para realizá-los, o objetivo de permanecer no poder a qualquer custo os esvazia de suas premissas fundantes que são corresponder aos clamores e urgências da população e expressar as demandas da sociedade, de forma democrática, competente, ética e justa.
Nosso sistema político-partidário, a pretexto de gerar condições de governabilidade, enredou-se numa lógica própria fisiológica de formação de base de apoio parlamentar, solapando cada vez mais as possibilidades de emergirem diferentes e verdadeiros projetos de desenvolvimento que se ofereçam como alternativas à escolha dos cidadãs e cidadãos. A maioria dos programas são feitos sob medida para os períodos eleitorais, sem compromisso real de implementação, tangidos pelo carisma de nomes e pelo imediatismo das palavras de ordem escolhidas por esquemas cada vez mais caros e sofisticados de marketing.
Passada a eleição, o poder fecha-se para a sociedade, empurrando-a para o passivo lugar de mera expectadora do processo político. Ao mesmo tempo, começa a preparar a composição de forças para as próximas eleições, com base na distribuição de cargos e vantagens, como se ainda estivéssemos nas capitanias hereditárias. A teórica separação dos poderes dá lugar à exacerbada predominância do Executivo e da União, num regime com ranços imperiais, assentado sobre uma noção de governabilidade que se traduz na repartição dos pequenos, médios e grandes poderes, prerrogativas e orçamentos de Estado, tornando inviáveis políticas públicas com organicidade, planejamento, integração e visão de longo prazo.
Essa prática, que se vende como inexorável, interage com o poder econômico, consolidando a cultura viciosa de tolerância do uso privado dos bens públicos e levando a insuportáveis distorções na aplicação dos recursos financeiros, tecnológicos, naturais e humanos do Brasil. O interesse público fica refém do poder econômico, do calendário político e das conveniências e acordos de bastidores. Chegamos a um ponto perigoso de relativização ética e de aceitação, como naturais, de práticas lesivas à sociedade.

23.3.13

Dilma e seu interesse pelo Xingu


Lembro-me bem do dia em que a então candidata Dilma iria ao Pará discursar sobre suas intenções de governo. Estive bastante contente com o evento e não me demorei muito a tomar uma condução rumando para a Capital.
Durante o percurso Castanhal-Belém de 68 km notei um movimento e sobretudo um colorido anormal por ali. Eram dezenas de ônibus que vindos do interior traziam paraenses do estado inteiro, todos com o objetivo claro de despedir-se de Lula, mas sobretudo de conhecer a candidata á presidência. Eram sem-terras, assentados, ribeirinhos, colonos. Pessoas simples que conheciam o Brasil apresentado pelo Jornal Nacional.
Quanto mais me aproximava da Pedreira mais inteiro o fluxo vermelho tomava conta de Belém, então deparei-me com mais de cem mil pessoas sob o palco alto, a segurança nacional, O Exercito, a Marinha e a Aeronáutica.
Não demorou para que Lula viesse e fosse aclamado, o novo pai dos pobres exalta a multidão frenética, um frissom tomou conta de tudo. São milhares de vozes de gritos que tomam a cidade por pelo menos cinco minutos então Lula faz seu discurso, pede votos para Dilma e se despede.
Dilma não veio a Belém. Seu neto havia nascido e por isso apenas Lula viera. Não por acaso a Hidrelétrica de Belo Monte caminha a todo vapor, debaixo dos panos quentes do governo que numa atitude Ditatorial desrespeita todos os ambientalistas, antropólogos e historiadores, e principalmente os moradores da região além de massacrar todas as populações indígenas do Santuário do Rio Xingu.
Desde o primeiro momento ficaria claro que os olhos estão voltados para o capital. Aos interesses das megalópoles que acreditam que no Pará as jacarés tropeçam nas pessoas. Que ignorância terrível. Dos políticos e dos defensores dessa politica de massacre. Uma  questão onde os perseguidos do passados são os algozes da próxima geração.
Na foto acima protesto de estudante premiada em defesa do Xingu.



22.3.13

Belo monte e a morte do Xingu

Indígenas despejados no Rio de Janeiro


"A Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro enviou, nesta sexta-feira, notificação para que o terreno do antigo Museu do Índio seja desocupado em um prazo de 10 dias", diz a nota. Segundo a Procuradoria, caso o imóvel não seja desocupado neste prazo, o Estado poderá entrar com um pedido de reintegração de posse".
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/01/130116_indios_tukano_cq_mdb.shtml


Um tumulto envolvendo policiais e manifestantes marcou a desocupação, nesta sexta-feira, do prédio do antigo Museu do Índio, habitado desde 2006 por indígenas que organizaram no local a chamada Aldeia Maracanã, na zona norte do Rio.
A polícia usou bombas de efeito moral e spray de pimenta para dispersar os protestos pró-índios. Segundo a assessoria de imprensa da PM, pelo menos dois manifestantes a favor dos índios foram presos e a Radial Oeste, uma via importante nos arredores do museu, chegou a ser temporariamente bloqueada.
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/03/130322_aldeia_cq_atualiza.shtml
Mais um duro golpe aos povos indígenas. Para o Estado brasileiro lugar de Índio é na rua e de preferencia sem História. 

19.3.13

Araguaína: cena noturna


Desde o início da noite uma chuva incessante cai sobre Araguaína. Escorre por ruas, em ladeiras e se acumula nas encruzilhadas por onde os carros transeuntes promovem um verdadeiro espetáculo de esguicho d´água. Quando passamos por uma cidade num carro dificilmente percebemos coisas além de luzes em movimento, a atenção se concentra na pista, em suas curvas,  o relevo que corre sob os pneus, os outros veículos...Porém quando passamos um tempo no lugar outras coisas desapercebidas aparecem mais sobre as sombras escuras da cidade. Quando olhamos pra dentro das sacadas úmidas, de lojas fechadas geralmente vemos apenas belas vitrines .reluzentes com manequins magros, bem vestidos e sorridentes. Foi na sacada de uma loja de roupas de grife que vi hoje a imagem que tomou meus pensamentos. Perdida entre várias vitrines vi um senhor que me parecia bastante velho, sentado sobre um degrau. Aparentemente um mendigo, novidade nenhuma nessas beiras de estrada, mas além dos cabelos muito grisalhos outra coisa que chamava a atenção era a falta de trajes do idoso em questão. Minha primeira reação foi imaginar o frio que deveria está sendo sentido por ele, mas depois logo me dei conta que isso era o de menos. Pra quem não aonde ir por que lutar que diferença faz um par de roupas. Ironia do destino. Aqueles manequins agasalhados e aquele humano nu. Despido de qualquer direito. A verdade é que senti vergonha. De vê-lo tão exposto ás mazelas da pobreza. Da nossa sociedade que se consome. Duvido de qualquer anúncio que conte o fim da pobreza no Brasil. Nossa classe de "excluídos" cresce na velocidade da internet 3G. Alguns homens se aproximaram e o carro virou a esquina. Talvez o levassem dali. Que sociedade suportaria viver em tal estágio de deploração?

18.3.13

Conexão Belém-Brasilia: a história da estrada

RODOVIA BELÉM-BRASÍLIA. UMA EPOPEIA COMPOSTA POR DOIS MÉDICOS: JK E WALDIR BOUHID*

                      Sérgio Martins Pandolfo**

  “Posso dizer que médico sou e serei – "Tu es medicus in æternum" – até o final de meus dias”. Juscelino Kubitschek de Oliveira em seu livro “A Marcha do Amanhecer” (1962) 

           A Rodovia Belém-Brasília, que está prestes a completar o cinquentenário de abertura, teve uma trajetória de verdadeira epopeia entre a decisão e a concretização dos sonhos de dois homens notáveis: Juscelino Kubitschek e Waldir Bouhid. A determinação e o arrojo marcaram a personalidade desses dois gigantes como já a seguir se verá.
           No início de 1958, o Presidente Juscelino Kubitschek reuniu, no Palácio dos Leões, em São Luís do Maranhão, os Governadores da Amazônia e do Nordeste bem como os dirigentes de órgãos federais para comunicar-lhes sua decisão de construir a Nova Capital da República, cuja inauguração já havia adrede fixado para o dia 21 de abril de 1960.
           Após a exposição do Presidente Juscelino, a respeito das obras infraestruturais de transporte e comunicação planejadas para proporcionar condições de desenvolvimento à nova capital, Waldir Bouhid, Superintendente da SPVEA, verificando que o Pará estava fora do projeto global, fez ver que, sem uma rodovia interligando a capital paraense ao planejado Distrito Federal, este nada significaria para Belém, naquela época com ligação direta com o Rio de Janeiro, sede do governo federal, apenas por meio de navios e de aviões.
           O engenheiro Regis Bittencourt, Diretor Geral do DNER, consultado no ato por Juscelino sobre a viabilidade técnica da construção de uma rodovia entre Belém e Brasília, abriu o mapa do Brasil e, assinalando o enorme trecho de floresta virgem, disse ser humanamente impossível à engenharia nacional realizar obra daquele vulto, no prazo de dois anos. Tentava-se “pôr a água da razão no vinho puro da sabedoria divina”, a redizer São Boaventura. Sem se dar por vencido, Waldir Bouhid lançou o desafio: “Presidente, não sou engenheiro rodoviário, sou médico sanitarista. Entretanto, se Vossa Excelência conceder-me os meios, a SPVEA construirá essa rodovia para ser inaugurada juntamente com Brasília”. Tomado de surpresa - e maior firmeza - o diamantino JK concluiu: “Pois então, senhores, começaremos amanhã!”. 
           Em 19 de maio de 1958, Juscelino sancionava o decreto nº 3.710, criando a Comissão Executiva da Rodovia Belém-Brasília – RODOBRÁS, vinculada à SPVEA e presidida pelo seu Superintendente.
          Transformada em meta prioritária do governo Kubitschek, a construção da rodovia foi subdividida pela RODOBRÁS em três setores: Goiás, Maranhão e Pará. O trecho de Goiás coube ao engenheiro agrônomo Bernardo Saião, pioneiro do desbravamento do norte goiano, que viera a morrer tragicamente em pleno serviço, a 15 de janeiro de 1959, esmagado pelo tombo de frondosa árvore.
           O trabalho de desbravamento da floresta virgem, numa extensão de 500 km entre São Miguel do Guamá, no Pará e Imperatriz, no Maranhão, foi o mais dramático dessa batalha ciclópica contra as asperezas da Natureza, o tempo limitado, a falta de equipamentos adequados e o excesso de chuvas nas épocas invernosas. Os 6.000 homens lançados nessa magnífica obra de integração nacional operavam, na fase inicial de desmatamento, basicamente com machados, terçados, facões e pequenas ferramentas de uso manual, ademais da determinação e bravura.
           Longe dos momentos de tristeza causados pelo desaparecimento trágico do engenheiro Bernardo Saião, do engenheiro paraense Rui Almeida e de outros trabalhadores anônimos, o ponto marcante daquela obra considerada impossível foi a chegada da Coluna Norte da Caravana de Integração Nacional, em Brasília, depois de oito dias de viagem. Bastante emocionado, Waldir Bouhid, comandante da caravana, ao ser abraçado por Juscelino, que estava radiante de alegria, disse-lhe apenas: “Presidente, missão cumprida”.
           No dia dois de fevereiro, houve em Brasília um acontecimento de significação excepcional na vida brasileira – uma verdadeira festa cívica de integração nacional. Brasileiros de todos os quadrantes, partindo de Uruguaiana, Porto Alegre, Belém do Pará, Fortaleza, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Cuiabá, Campo Grande – para só citar alguns pontos extremos que até então não se tocavam por laços rodoviários – marcaram de modo eloquente um acontecimento histórico: o final da condição de isolamento em que viviam as nossas populações.
           Outro fato bastante significativo: muitos dos integrantes das caravanas eram elementos que não acreditavam na rodovia de ligação Norte-Sul do País. Engajaram-se na coluna como novos São Tomés: queriam ver para crer. De um deles sabemos que estava convencido de que a viagem da Coluna Norte seria uma farsa bem engendrada e que as viaturas e os passageiros seriam transportados de aviões de um ponto para outro da selva, onde só existiam os campos de pouso, abertos de 100 em 100 km. Para esse desconfiado foi uma agradável decepção aquele sulco gigantesco na floresta que parecia intransponível...!

17.3.13

Yoani Sanches

Quando liguei a tv e li uma mulher magrinha com enorme bata e um cabelo que tinha ao menos um metro tive inicialmente a impressão de que ela vinha de um lugar onde o tempo dos cortes sofisticados e as roupas de marca não haviam chegado. A fragilidade aparente perdia espaço enquanto manifestantes desinformados gritavam horrores e barbaridades a uma jovem blogueira que com o poder de seu mouse chamara atenção do mundo para uma questão do século passado: o embargo a Cuba. 
Yoani Sánches escritora do blog clic aqui tem percorrido o mundo no seu ideal da abertura política cubana. Quem a confronta acredita que ela como cubana se vende ao interesse ianque, mas no mundo em que vivemos, quem não quer dinheiro? Quem não precisa dele? Todos os sistemas economicos terão que sofrer adaptações ao invés de se fixarem em valores já atiquadros e perdidos no tempo. Todo regime deve garantir as livre expressão de seus cidadãos e além do mais não haverá Comunismo de verdade se não se acabar com a divisão da sociedade em classes sociais. Que venham as transformações.