19.3.13
Araguaína: cena noturna
Desde o início da noite uma chuva incessante cai sobre Araguaína. Escorre por ruas, em ladeiras e se acumula nas encruzilhadas por onde os carros transeuntes promovem um verdadeiro espetáculo de esguicho d´água. Quando passamos por uma cidade num carro dificilmente percebemos coisas além de luzes em movimento, a atenção se concentra na pista, em suas curvas, o relevo que corre sob os pneus, os outros veículos...Porém quando passamos um tempo no lugar outras coisas desapercebidas aparecem mais sobre as sombras escuras da cidade. Quando olhamos pra dentro das sacadas úmidas, de lojas fechadas geralmente vemos apenas belas vitrines .reluzentes com manequins magros, bem vestidos e sorridentes. Foi na sacada de uma loja de roupas de grife que vi hoje a imagem que tomou meus pensamentos. Perdida entre várias vitrines vi um senhor que me parecia bastante velho, sentado sobre um degrau. Aparentemente um mendigo, novidade nenhuma nessas beiras de estrada, mas além dos cabelos muito grisalhos outra coisa que chamava a atenção era a falta de trajes do idoso em questão. Minha primeira reação foi imaginar o frio que deveria está sendo sentido por ele, mas depois logo me dei conta que isso era o de menos. Pra quem não aonde ir por que lutar que diferença faz um par de roupas. Ironia do destino. Aqueles manequins agasalhados e aquele humano nu. Despido de qualquer direito. A verdade é que senti vergonha. De vê-lo tão exposto ás mazelas da pobreza. Da nossa sociedade que se consome. Duvido de qualquer anúncio que conte o fim da pobreza no Brasil. Nossa classe de "excluídos" cresce na velocidade da internet 3G. Alguns homens se aproximaram e o carro virou a esquina. Talvez o levassem dali. Que sociedade suportaria viver em tal estágio de deploração?
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