9.6.08

Os Xikrín do Cateté Parte I

Num primeiro olhar tudo é tão grandiosamente encantador e colorido que não consigo me concentrar em personagens separados, a não ser na união que demonstram em todos os momentos um com os outros. Os membengokrê, que se acreditam vindos da água e que tem seu mito fundador baseado na coragem de dois irmãos que conseguem domar a natureza e por isso se emplumar de penas de aves, são parte delas, fortes como a mata de 100 km de floresta nativa que nos encobre.

Saímos de Marabá as sete da manhã e logo )
somos avisados que a viagem durará até a noite, são horas de estradas de terra e chão encharcados, 75 pontes cruzadas em meio a Araras, Tucanos, Macacos e toda a exuberância da floresta Amazônica.
(Menire pronta para a festa- Maria Guimarães)
Amanhece cedo por aqui e o banho gelado ajuda a acordarmos ás cinco. O sol ainda não nasceu. Pouco a pouco o pátio vai sendo preenchido por nós. Café da manhã e pequena caminhada pela pista de pouso, finalmente somos convidados a entrar na Aldeia e agora não é a primeira impressão que fica.
(Mekaron- Maria Guimarães)

O contato se mantém hostil em parte de manhã, muitas pessoas estranhas chegam a todo momento. Há grande movimento na pista de pouso. Conversando com um dos indígenas ficamos sabendo que a 20 anos aquele ritual não é celebrado junto ás autoridades e hoje estão todos lá, reunidos na Memkikré ou “casa dos homens”, espaço circular no centro da aldeia destinado ás assembléias políticas.
(Maria Guimarães)
Enquanto a política é discutida pelos homens sérios e guerreiros, caminhamos ao ar livre pela aldeia e aprendemos algumas palavras, inclusive como nos apresentar-mos. Com isso as conversas fluem muito melhor. Todos sorriem da gente quando falamos erradamente e são insistentes na nossa repetição. Temos que falar Bonito, a oratória é muito valorizada pelos Xikrín.



Encontro a noiva sendo arrumada por seu pai, que orgulhoso pede pra que eu faça belas fotos com repetidos “mei” quando lhe mostro o “mekaron” que fiz. O azul e o vermelho pintam a todos. O jenipapo, com seu cheiro inconfundível, logo está nos meus braços e eu pouco a pouco me pinto de “menire”. Assim, tenho permissão do núcleo feminino pra entrar nas casas, falar em português e fazer algumas perguntas. Dessa forma consigo a descrição das próprias “menires” sobre o casamento:
O casamento ocorre por acordo dos pais, mas só acontece se os noivos assim o quiserem. A noiva costuma casar logo após a primeira menstruação, esta que conheço, tem onze anos e parece satisfeita apesar dos três dias de jejum que passa, junto ao noivo em uma cama coberta de esteiras, vigiados noite e dia pelos pais. Segundo elas é um rito de purificação do espírito e prova de força. Após esses três dias é banhada pelas outras mulheres da tribo e passa a ser responsável pela coleta e o plantio, as atividades da agricultura, o lar, os filhos que logo virão, a pintura corporal, os ornamentos, essas são as atividades da nova mulher que agora também ganha voz entre as guerreiras Xikrín.

Recém Casados - Maria Guimarães

Proximo texto: Parte II - A festa do Marimbondo

Maria Guimarães é estudiosa independente das etnias indígenas do Sul do Pará.

24.5.08

Tuíra Kayapó

Homenagem a Tuíra Kayapó

Nós não somosbrasileiros Não. Não conhecemos El Rei
Nós saímos da água
Não cremos em um branco pregado numa cruz
Nós vamos voltar pras estrelas
Mas antes disso lutaremos pela terra sem males
Pela mata que caçamos e criamos nossos kurumins
Os rios que brotam da terra
Inundam a alma que não temos
Nós não somos Brasileiros
Somos parte integrante
Peça da máquina
Chip do sistema
Nós não somos Brasileiros
Nós somos a Amazônia.

20.5.08

Ele virá...

Nasci durante a guerra fria, talvez explique a inquietação e o maniqueísmo tardio. Vivo na Amazônia, fronteira do Brasil com outros países, cheia de litoral, floresta, rio, mar e tudo que Amazônia pode significar. É como viver no país das maravilhas: trânsito e sol quente, e depois de 20 minutos posso descansar no beira-rio singelo, de gente alegre e esforçada.
A vida e as guerras continuaram, como de costume mesmo.
Era ano de Olimpíadas, na China, creio eu. Ou seja, este. Quando por seja qual for a força do destino eu estava de casamento marcado e me arriscava no idioma del Che.
Enquanto folheava as páginas da vovó ou o livro do Korda, ouvia Mercedes ou Violeta Parra, ou ainda quando acordava, pois acordava ao seu lado, sabia que ele estava lá e eu, de fato, ia me casar.
Evidentemente pensei no conflito do Iraque e se não preferia ir pra lá e fazer cobertura fotográfica. Talvez morar na praia e aprender a tercer redes de pesca. Quizás mudar pro exterior, conhecer el compañero Chavés e fumar charutos, em Cuba, será? Poderia ter escolhido a carreira atávica de professora dos indigenas e acordar com raiar do sol e Mori, akati mei, kubenira.
Mas estava escrito no grande livro da sabedoria popular: Ele, virá!
O país vai crescendo, no tempo que um país precisa pra fazer isso. Oito anos de um presidente popular, e não populista. Preocupado com os velhos e as criancinhas e atencioso com os funcionarios públicos e trabalhadores de modo geral. O salário minimo vale mais que 100 doláres, e as universidades, públicas e particulares multiplicam-se graciosamente de costas pra metrópode.
E Ele, veio mesmo.
Com as histórias e o espelho do colonizador. Misturou-se a massa de estrangeiros que caminham nesta Terra Sagrada. Banhada do sangue da Cabanagem e do Massacre dos Sem-terra.

10.4.08

O século e Eu


Bem, cá estamos eu e o século, completando nossos XXI.

A vida do Planeta vai como sempre uma maravilha. Caiu um Império Aqui, emerge um dali e até as águas da pororoca fluem pro mar. A bola da vez USA, mergulha em recessão econômica e guerra contra o terrorismo, ou contra frio que fará se não tiver petróleo nos aquecedores...Como diria o grande Zé "em casa que falta pirão, irmão bate em irmão"....De modo geral o ano é bom pra mim, que atinjo maioridade penal e pro país que tem a grana da divida externa. Cinco vezes campeão mundial, com um crescimento de 5 % ao ano e evoluindo, na região que tenho a sorte de ter nascido, cresce 12%, e eu ainda tenho o privilégio de tomar banho no Rio Tocantins o ano todo. Mas então eu poderia ter nascido em Guiné, na Antártida, ou em Minas Gerais, onde tudo era uma vez e nada é de verdade. Mas estou aqui, no meio da floresta, pintando muiraquitã de argila e fazendo embalagem ecologicamente correta...vivendo a vida boa e besta do povo brasileiro, feliz mesmo na enchente do rio, com a queda do dólar, na estréia do novo filme do Almódovar. Sorridente enquanto 1bilhão de toneladas de minério são extraídos do solo nacional, mas o solo, hoje nacional, foi o quintal da aldeia que eu não pude ver, destribalizada. Oh, sim, destribalizada Darcy Ribeiro, mas feliz como o povo, pirografando, fazendo desenho de índio no mundo globalizado....De maneira geral me sinto preparada, pro seculo é bem verdade, mas especial pro casamento que se dará em julho, Após os 21...Tenho certeza agora, eu sai da água, de dentro da vitória régia....