23.9.09

Um outro mundo é possível?




Quando encontramos nossa "hospedagem familiar" o Fórum Social Mundial de fato começa. É segunda-feira e uma senhora sorridente nos abre a porta de sua casa com um sotaque carregado de "s", ela tem expressão fortemente indígena e uma enorme boa vontade.
A Universidade Federal Rural da Amazônia está localizada no bairro Terra Firme, invasão de 12 anos que costuma aparecer nas manchetes de jornal como área de grande violência urbana.
Logo percebemos a presença constante de policiais, bombeiros, helicópteros, seguranças particulares e uma quantidade infindável de colaboradores do sistema.
Logo no portão de entrada um grupo de indígenas Uai-uai expõe seus artesanatos e ofereçem pintura corporal a um preço irrisório de 5 reais. Praticamente todos que estão ao redor já expõem orgulhosos suas tatuagens de jenipapo, supõem-se então que são adeptos da causa indígena.
É numa escola pública ao lado do campus da UFRA que eles estão alojados, todas as etnias juntas, separadas do públicos em geral. Provavelmente isso explique a revolta do restaurante que contarei mais tarde.
No alojamento dos fundos, numa área entre os stands e a floresta Amazônica ficaram os bichos-grilos de modo Geral.
Numa área multicolorida com bandeirinhas de São João, enfeites, badulaques, penduricalhos e uma loja, repita-se uma LOJA, estavam os ex gays, ex drogados, ex hippies, mas isso só descobrimos depois de caminhar-mos um pouco e finalmente decidimos sentar e acender um cigarro pois nunca tínhamos visto uma pintura do Mickey abrindo as águas do mar vermelho.
Este era o alojamento dos Cristãos Novos.
Um homem jovem, barbudo, cheio de colares e tatuagens aproximou-se, não era um aqueles hippies sujus que encontramos nas ruas, era um homem branco. Logo lhe oferecemos um trago, pra selar a amizade e puxar assunto.
_Galera com muito carinho, com muito carinho, vocês não podem ficar aqui.
_Tudo bem, a gente apaga o cigarro...mas essa é uma área particular?
_ É que aqui aqui a gente tem outra proposta pra vida, é uma proposta nova...
_Qual?
_Jesus!
_Ãhn? Mas essa proposta tem dois mil anos...
Ele sentou-se, mas antes que pudesse continuar sua pregação um outro aproximou-se:
_Marcius, eles estão invadindo o nosso território!!!
_Peraí, vocês tem um território?
_ É, da corda pra cá é nosso...
_ Tu vem pro fórum apresentar uma proposta pra salvar o planeta e a primeira coisa que tu faz é implementar a propriedade privada?
_ A sua moeda caiu...
Marcius respondeu e saiu, nós também nos retiramos. Talvez não tenhamos tido sorte apenas. O primeiro soldado da revolução que encontramos nos propôs uma religião.



O sol abre outra vez numa janela de nuvens. A garoa cai no correr da tarde. Todos são molhados na cidade das mangueiras.



22.9.09

Nas Terras do Bem Virá

O filme feito sem nenhum insentivo fiscal de saída impresiona. Primeiro pela necessidade que nós paraenses temos de negar a presença de trabalho escravo no estado, depois pela transparencia dos fatos relatados trazendo á tona verdades sobre a morte da Irmã Doroth, a lista negra de líderes sem terras e cenas nunca vistas sobre o massacre da Curva do S.
Só um país que na época de Getúlio Vargas entrega a Hitler a mulher grávida de luiz Carlos Prestes pode deixar solto o fazendeiro que mandou matar uma freira retirada no meio da floresta que ensinava agricultura sustentável aos retirantes nordestinos instalados no PDS. Quando Doroth abrio seu bíblia e começou a ler um trecho escolhido ao acaso sabia de fato que ia morrer e Tato, o autor dos disparos consumou sua empreita de 50 mil reias. O mandante, fazendeiro Bida, continua solto, desfrutanto de suas terras griladas, impondo medo através de coronelismo aos moradores de Anapu.
No dia 17 de abril de 1996 mais de cinquenta trabalhadores sem-terra, na maioria velhos, mulheres e crianças são massacrados na cidade de Eudorado dos Carajás. A polícia obviamente escolhe dezessete lideranças e divulga um número infimo perto do que foi o conflito em que tanto a tropa vinda de Parauapebas quanto a vinda de Marabá cerca os trabalhadores sem a identificação obrigatória. São soldados sem nomes mandados pelo então governador Almir Gabriel a reprender um protesto passífico, uma marcha que pretendia chegar a capital.
O trem de minério da compania Vale do Rio Doce sai de Carajás cheio de minério e volta cheio de Maranhenses que trabalham a troco de comida e vivem em cativeiros nas fazendas de gado ou de soja no sul do Estado.
O filme chega a ser cruel destrinchando tantos conflitos sociais que pertuba demasiadamente o telespectador.
Numa das cenas uma reporter televisiva que estava fazendo entrevistas quando um assentamento é invadido pela polícia grita: Não atira, só tem mulher e criança, não atira! E as metralhoras fazem seu barulho ensurdecedor junto aos gritos das mulheres e crianças...as mazelas do sistema, as desigualdades raciais, o latifundio que sempre vence a guerra...o povo analfabeto e desdentado que se rebela com na revolução Cubana.
Quem diz que nosso povo não é revolucionário passa muito tempo diante da televisão.

Não Passarão!
Não Passarão!
Não Passarão!

Viva Tuíra Kayapó!

17.9.09

Olga

O livro e a criança aconteceram no mesmo dia.
O primeiro foi encontrado no sábado pela manhã enquanto esperava ansiosa o nascimento da criança e revistava nervosa uma livraria perto da maternidade.
Fernando Morais reúne uma infinidade de documentos e descreve de maneira simples e historiográfica a vida de Olga Benário, judia, comunista, mulher corajosa que vem para o Brasil com a missão de protejer o então capitão Luiz Carlos Prestes que atravessou o país com mais 25 mil homens e mulheres que não aceitavam o regime totalitário a que o país era submetido.
A criança aconteceu mais tarde, ás 21:45hs ouvi seu choro discreto dentro do centro cirurgico e poucos minutos depois a tinha em meus braços. Contei-lhe algumas coisas e desejei-lhe boa sorte na vida.
Depois de dois dias viemos os três pra casa (Eu, o Livro e a Criança) e a cada enorme soneca que a criança tirava durante o dia eu me aprofundava no livro. Descobria um pouco mais sobre a Aliança Nacional Libertadora, sobre pessoas brasileiras ou estrangeiras que aqui estavam numa luta cheia de torturas e traições. Assim vi Oneida de Morais sendo citada, por já ter lido em Banho de cheiro a invasão que sua casa sofreu em Belém com tiros, seus filhos sendo levados presos pela polícia política e a sua fuga solitária para os Estados Unidos da América. Ela nunca voltou pra cidade das mangeiras e morreu sozinha num apartamnto junto ao seu gato José.
Mais então minha criaça acordava e me chamava com sua choro nem mais tão discreto de mulher forte que será. Ás vezes leio trechos do livro em voz alta, para que se acostume com seu nome. Para que saiba o que é ser uma Olga.

18.8.09

Tucuruí

Por volta das 22 horas o imenso lago da hidrelétrica de Tucuruí surgiu, primeiro silêncioso por trás de Breu branco, mas logo tomou o horizonte atravessado por uma barreira de dezoito kilometros de concreto.
A Vila é avistada de longe com as ruas enfileiradas no pé da usina. No bairro mais seguro de Tucuruí não há muros entre as casas, crianças patinam no asfalto novo e no templo ecumênico a festividade da padroeira continua tranquila.
Na parte de baixo da cidade o movimento é bem mais intenso de motos, carros ônibus, ciclistas, pessoas indo a igreja ou voltando pra casa.
Com a ajuda de moto-taxistas chegamos ao porto e encontramos o barco que partiria ao meio dia do Domingo para Cametá. Segundo o barqueiro ao chegar ao destino encontraríamos outro barco que nos levaria até Belém, ele também nos informou que a viajem duraria até a uma hora da madrugada e que poderíamos pernoitar no barco até o dia amanhecer. o preço da passagem é 25 reis e não há camarotes.
Ainda caminhamos um pouco até que o movimento da cidade começou a cessar. Os carros já não vinham de todas as direções numa aparente desordem explicita do trânsito.
As casas de madeira, o shopping center, as histórias de enchentes repetinam que invadem as casas durante a madrugada e encombrem a parte mais baixa da cidade quando as comportas são abertas, a primeira fábrica de silício metálico da Amazônia, são características desse lugar que teve seu boom econômico na década de 80 e foi eleita por três anos consecutivos como a cidade mais violênta do planeta.
O povo tem cara de índio, são poucos os estrangeiros que se arriscam a descer aquelas ruas de bares abertos e tecnobrega alto exalando pelo quarteirão.
Na manhã de domingo a feira do mercado municipal fervilha de gente comprando e vendendo roupas, produtos eletrônicos, comida, açaí, frango abatido, peixe, remo de pesca, matapi, dvd pirata.
A senhora tapioqueira perfuma o ambiente com a goma dando a liga na panela quente.
Outros mais cansados do tempo jogam-se aos cantos bêbados ou pedem dinheiro cambaleantes no meio do mercado.
Por volta das oito e meia voltamos ao cais e armamos nossa rede na parte de cima da embarcação, logo atrás da cabine do comandante (Incríveis as informação que se conhem na internet) seguindo o conselho de um blogueiro que já havia feito essa viajem.
Nosso comandante informou-nos que o jantar seria servido e já estava incluso na passagem.
O barco é separado em três partes distintas. Toda a altura do calado forma o porão, onde armazena-se a carga e também onde o motor está instalado.
Na parte do meio encontra-se a cozinha, os banheiros e longo vão de mais ou menos quinze metros quadrados que é ocupado completamente por passageiros.
A parte superior é ocupada pela cabine do camandante e seu camarote, um redório de 8metros quadrados e o convés, uma varanda gradeada a céu berto de onde muitas criaças empinam suas pipas.
Descemos para um almoço típico nos restaurantes populares da orla e no encerrar deste um trabalhados faminto nos pediu um trocado. Oferecemos lhe a galinha caipira, a panelada e um pouco de coca-cola. Ele sorriu enquanto eu buscava um prato e talheres limpos pra que ele pudesse se servir com o mínimo de dignidade.
O barco foi enchendo e enchendo. Pessoas cheraão pelo rio em canoas motaorizadas chamadas Rabetas. Iam juntando-se ao ao balé de redes coloridas balançando com o vento.
Ao meio dia em ponto o barco desatracou do trapiche e do convés pudemos ver uma caminhonete descendo apressadas na ladeira do porto, mas não diminuimos a velocidade apesar da gesticulação exagerada do motoristae sucessivas buzinas. Do meio do Rio Tocantins via-se Tucuruí diminuir.

27.7.09

Entre o Itacaíunas e o Tocantins




"Marabá é uma cidade brasileira do estado do Pará.
Sua localização tem por referência, o ponto de encontro entre dois grandes rios, Tocantins e Itacaiunas, formando uma espécie de "y" no seio da cidade, vista de cima. É formada basicamente por três núcleos urbanos, ligados pela estrada
BR-230, a Rodovia Transamazônica.
A
etimologia da palavra “Marabá” é de um termo indígena - como tantas outras que conhecemos por denominar rios, povoações, relevos e cidades do Estado do Pará - e significa filho do prisioneiro ou estrangeiro ou ainda, fruto da índia com o branco".
Pôr-do-sol no Rio Tocantins

Diário de Viajem - Dia 1


A tarde de sábado corria quente e enquanto eu arrumava as mochilas tentava imaginar não mais que o destino certo: Algodoal, mas a amplitude de uma viagem de barco até a “Ilha dos Amores.”
Viajar pelos rios, as veias da Amazônia povoadas pelos ribeirinhos, ancestrais do “achamento” do Brasil, que moram nas margens e usam canoas pra se locomover, como diria Pinduca: “Esse rio é minha rua”.
Quando o via sentado na minha frente, com as pernas cruzadas, admirava o falar manso e certo de quem já navegou em outras águas.
_Você ta pronta?
_Nós estamos!
Apertamos as mãos e caminhamos apressados. Um prédio começou a ser construído na esquina. Começou silencioso. Alguns funcionários que chegaram e fizeram suas medições. De repente a rua estava repleta de máquinas que espalhavam a terra vermelha da ausência do asfalto, outras que cuspiam litros e mais litros de concreto, enchendo cada sapata e enfim, as paredes começaram a ser levantadas, descobrimos ali um condomínio, pra abrigar tantos imigrantes que desembarcam em Marabá a cada novo Verão.
O Taxi-Lotação nos levou ao terminal rodoviário e próximo ao trevo que liga os três núcleos uma longa e barulhenta passeata de motos-taxis nos cruzou e após alguns minutos de buzinas ensurdecedoras o motorista que nos levava contou-nos sobre as dificuldades da classe e suas disputas com os moto-taxistas.
Taxi lotação é uma classe de motoristas que fazem a mesma rota dos ônibus urbanos e usam inclusive as paradas feitas pela prefeitura para recolher os passageiros. De uma parada a outra costuma-se cobrar o valor de dois reais. É uma ótima opção de transporte, pois desfruta de ar condicionado e pouca aglomeração humana.
Já o moto-taxi é uma outra opção de transporte que consiste em você se oferecer pra ser o carona em sua lambreta. Estes geralmente usam um colete laranja, o mais chamativo que conseguem e a vantagem desse transporte é que ele nos leva até o destino que iremos, coisa que o taxi-lotação não oferece. A corrida entre dois núcleos gira em torno de quatro reais.
A disputa que acontece, segundo o negro alto e corpulento que nos leva, é de caráter jurídico, pois apenas a profissão de moto-taxi está sendo regularizada.
Com dez minutos de corrida chegamos ao terminal e logo um jovem homem ofereceu-nos passagem para Tucuruí. Embarcamos na vam, por volta das 16 horas. A viajem começou.

26.7.09

Tarde de Domingo


O domingo escorre devagar

Outro livro pra gente discutir

Ele anda leve pelo lar

Com pele descascada pelo sol

Jeito menino fácil de sorrir

Mais um cabelo pra se perguntar

Se o tempo continua a lhe roubar

Ou garantir o eterno ir e vir

Ela dança de calcinha pela sala

Um tambor badalando pelas pernas

Muitas praias muitas serras se escutava

com um sorriso finalizando o raciocínio

A noite toma a tarde da floresta

E eles vivem no silêncio da cidade

A febre alta

Do mais antigo ritual