22.7.13

Conhecendo o povo Karajás ( Parte IV )

                                                               O banquete servido
Os Karajá alimentam-se basicamente do Rio Araguaia. O pescado é a base alimentar da tribo, complementando-a com a mandioca, farinha, frutas (manga, maracujá,etc). Foi fácil perceber isso quando fomos apresentados ao cardápio do almoço!




Tartarugas, tracajás e peixe, muito peixe. Cada um deles tinha uma forma diferente de preparo: as tartarugas pequenas eram mortas, e postas enfileiradas numa espécie de chapa rudimentar apoiada em tilos e movida a lenha.



 As tartarugas não foram tiradas do Rio, pois há alguns anos um criatório é mantido. Mesmo com a retirada das 50 ou 60 tartarugas servidas a desova e a procriação da espécie é preservada.



O resultado final é um casco torrado e um interior suculento, como as vísceras não foram tiradas, quando o casco é quebrado e arrancado é fácil identificar todos os órgãos, alguns dos animais apresentam ovos, muito apreciados. 




                                O Bororo
 A tartaruga gigante, que pesava uns 30 kg, merecia um tratamento especial, é a base de um prato chamado Bororo. O Bororo é preparado da seguinte forma: depois de morta a tartaruga é aberta e as vísceras são retiradas assim como as partes mais duras do pescoço, das patas e o rabo.





Os miúdos são cozidos e cortados assim como as partes de couro, porém separadamente. Quando as partes cozinham, o casco da tartaruga é usado como panela, porém colocado em fogo muito baixo.




No fim de 8 horas tudo está tão misturado que lembra uma pasta densa. O gosto se assemelha com o sarapatel, prato típico do nordeste brasileiro ou a Maniçoba, comida do Pará.




 Já o peixe era preparado de duas formas distintas: assado em forno, como a tartaruga, ou frito em grande panelas. Sal era seu único tempero.






21.7.13

Conhecendo o povo Karajá (Parte III)


                                                        A Cerimônia do Kararaho
Desde tempos imemoriais, uma vez por ano, o espírito dos guerreiros Kaapó capturados nas investidas do exército Karajá incorpora em alguns homens (crianças, jovens e adultos) onde após a chamada de seus donos são libertos.
O ritual começa no dia anterior onde alguns retiram-se na mata e jejuam e assumem a personalidade de guerreiro perseguido. Quando eles aparecem as crianças se escondem, todos tem medo, e muitos nem sequer saem de suas casas.
Vestidos com uma roupa confeccionada de palha que cobrem o rosto e parte do corpo até os joelhos, nas costas uma grande lança, nas mãos um pedaço de madeira em forma de porrete, na cabeça chifres, e muitos gritos, altos, estridentes, é realmente assustador. Eles saem da mata correndo, gritando e giram riscando com a madeira o chão de terra seca que levanta poeira ao seu  redor.
Enfileirados esperam por seus donos, então uma a uma a mãe anuncia sua sentença: "se for meu pode ir embora!"
Então o espírito volta pra mata onde permanece até o próximo ano.
Entre as crianças o medo é gigantesco, sobretudo entre as meninas, elas acreditam que se descumprirem a ordem e forem curiosas espiar o que acontece na mata ou se reconhecerem através da máscara o homem que veste a indumentária algo muito ruim poderá acontecer como serem ferroadas por arraias, picadas de cobra, afogarem-se no rio, entre outras coisas.
Esse mito me foi contado pelo ancião Lao Karajá.



Conhecendo o povo Karajá (Parte II)


Por volta das seis da manhã estávamos todos de pé, em parte por causa da própria ansiedade de ver o lugar de dia, em parte porque a noite fria pegou-nos de surpresa e a verdade é que encaramos uma temperatura de 15º C. Muitos cobertores, pés gelados, noite comprida.
Mas a manhã ensolarada nos recompôs e após um rápido café da manhã logo estávamos caminhando e conhecendo a aldeia.
A arquitetura é uma mistura de moradia tradicional feita de pau-a-pique, barro e palha, com pequenas edificações de alvenaria, que geralmente abrigavam o que seria a parte molhada da casa, com caixa d´água, banheiro e pia de lavar louça. Há pouco menos de 50 metros o Rio Araguaia pode ser visto.


Deste lado do Rio o Estado do Tocantins ancestral localização dos Karajá, do outro lado Estado do Pará ancestral localização dos Kaapó. O rio antes de dividir os Estados já funcionava como divisão das terras ocupadas por cada uma das tribos e palco das muitas guerras entre as duas. Hábeis arqueiros e pescadores os Karajá tem sua sobrevivência garantida pelo Rio Araguaia, que foi conquistado e defendido por um exército organizado, bem treinado e vencedor, mantendo seu domínio sobre as águas do rio até os dias atuais.




Conhecendo o povo Karajá (Parte I)

O convite veio por acaso, o amigo do amigo do meu esposo, apresentador Angisledson do Programa Expedições Tocantins, convidou-nos a acompanhá-lo durante viajem até a Aldeia Ixã Biowa Karajá próximo ao município de Santa fé do Araguaia.

Foram 24 horas de preparação e ansiedade. Filmadora, barraca, colchão de ar, comida de acampamento, remédios, e um mundo velho de apetrechos julgados por nós como necessários a tal empreitada.
Saímos de Araguaína por volta das 14 horas do dia 18 de julho de 2013.
O sol estava lindo e as ruas da cidade quase desertas, nessa época é comum as famílias passarem dias nas prais do Araguaína. Quando o nosso transporte buzinou na porta já tínhamos praticamente com tudo em mãos então rapidamente estávamos á bordo do cachorro louco, Jipe militar da década de setenta que romperia conosco os 120 km que nos separavam da aldeia.


Parece pouco é bem verdade. Refletindo agora percebemos que de fato os povos indígenas estão muito perto da gente, basta que saibamos olhar. Nossa equipe foi composta por mim, Maria Guimarães pesquisadora de línguas indígenas, Olga nossa pequena exploradora de três anos, o Historiador, marido e pai José Newton, o apresentador Angisledson, e o cinegrafista e mecânico Fábio.

Não demorou muito tempo de estrada para que o Estado do Tocantins nos mostrasse sua rica formação geográfica, com morros altos, e um terreno bastante rochoso. Ao longo da rodovia diversas pequenas cidades como Muricilândia, Aragominas, Santa fé do Araguaia e a pequena vila de novo Horizonte. No fim de uma hora de viagem a parte mais difícil do trajeto: a estrada de terra batida.
Nos perdemos no caminho, tivemos problemas mecânicos, atravessamos pontes rústicas e encaramos muita poeira, já com o cair da noite chegamos na aldeia, nos alojamos no espaço destinado ao posto médico, onde fomos recebidos pelo Dr Odinam. Curiosos porém cansados ainda arriscamos um pequena exploração por entre os quintais e casas, onde encontramos a Bororo, tartaruga que seria servida no dia seguinte.

7.7.13

Calmaria pós tempestade

Ainda tenho na memória recente a cena intrigante dos jovens com suas fogueiras em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiros e milhares de outras cidades pelo interior do Brasil. Nos dias mais tenebrosos um fantasma passou a assombrar até os mais céticos: prelúdios de um golpe.
Foram poucos os que se atentaram ao caráter anti-esquerdista das manifestações, ou a tentativa da imprensa de transformar a luta pelas tarifas e contra a corrupção em impeachment presidencial.
O fato é que ela saiu das cinzas e Dilma reapareceu para propor os cinco pactos que acalmariam a multidão descontente. Foi um belo banho de água fria nos ideais de revolução. Então ficamos com a reforma.
Reforma rejeitada pelos políticos, evidente. Será que eles votariam contra seus próprios interesses? Mas a Constituinte é inconstitucional. E a constituição garante foro privilegiado e tantas outras regalias...
Nos conformamos com as promessas ou com os fantasmas. E mergulhamos num marasmo diferente. Onde todos se defendem. Foi bonito ver o congresso (quase invadido) aprovando projetos no atacado até altas horas da noite. Com certeza trabalharam nos últimos dias mais que em todos os anos anteriores e elaboram como nunca, cada grupo com seus ideais, uma estratégia para tomar o poder dessa força política que emana das ruas uma urgência autoritária de revolta.