19.6.10

Minha História


Uma página em branco não conta a história de ninguém, mas a minha história começa exatamente assim, com uma página em branco. Minha mãe contou que quando abriu o exame de gravidez e topou com uma folha em branco por algum motivo aquilo a levou a pensar que sim, estaria grávida. Muitos meses se passaram até que rompi seu ventre calada e o médico ao me receber no mundo deu-me fortes palmadas, mas eu minúscula como era não chorei.
Muitas coisas foram ditas sobre o meu silêncio e minha avó, religiosa como era acreditou que aquilo era um sinal divino e não teve a mínima dúvida na hora de escolher meu nome: Maria de Nazaré, disse num almoço de domingo. E mesmo com a evidente contrariedade de meu pai assim escreveram meu nome no registro de nascimento.
Uma mulher com nome de santa não pode cometer muitos pecados cristãos, pelo menos na teoria, pois essa é uma premissa que nunca julguei tão séria aliás nem entendia direito o que queria dizer premissa e assim me senti livre pra viver minhas aventuras de criança sapeca.
Subi em pé de mangueira, fui miss caipira, joguei futebol na lama, tomei açaí com leite em pó, tive catapora,fui chefe de turma e por fim cresci, ou pelos passei a me considerar gente grande e aprendi a cozinhar pra poder alimentar a tribo e agradar o estomago e o coração.

Essa é 23ª vez que um abril começa pra mim, pra Ogum, pro massacre dos sem-terra, pra Tiradentes, pra todos os indígenas resistentes e firmes na cultura da sabedoria popular, pra humanidade inteira, todos nós bilhões de primatas, de salto alto e na praia, na superfície desse planeta.
Uma página em branco não conta a história de ninguém.

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