3.10.10

A terra das Mulheres - Maria Guimarães

Chovia há três dias quando Maíra sentiu as primeiras contrações e mandou chamar Ana a enfermeira da aldeia, apesar das gotas geladas que podiam se vistas de dentro do barraco e caiam praticamente na vertical não demorou até que a jovem mulher de vinte e cinco anos chegasse. Todos os partos naquelas condições eram difíceis: uma velha casa de alvenaria sem móveis, apenas redes atadas e coisas penduradas por pregos na parede esverdeada de lodo. O tempo não permitiria a decolagem do monomotor caso houvesse qualquer complicação. Era a primeira gravidez de Maíra que aos 14 anos já concebia o fruto de seu casamento e deitada no chão de terra batida exprimia junto a canções, orações e lágrimas a sensação da maternidade.
As mulheres que fariam o parto normal enquanto cantavam musicas e orações em língua materna não permitiam qualquer aproximação de outras pessoas que não fossem da tribo pois acreditavam que os maus espíritos poderiam acometer a criança de algum dos males que os brancos trouxeram. O papel de Ana era assistir ao ritual e com auxilio de seus instrumentos cirúrgicos cortar o cordão umbilical da criança sem ao menos tocá-la, nos braços da Avó, uma mulher de quarenta anos que conservava a altivez da juventude com seu corpo pintado caprichosamente de jenipapo e o cabelo sempre bem cortado mostrando-lhes as cicatrizes da testa e uma faixa do couro cabeludo bem no meio da cabeça com mais o menos quatro dedos de espessura, não via-se em seu corpo um só pelo que pudesse lembrar o ancestral em comum com os macacos, Jaci tinha certeza que havia saído da água.

Foi no segundo dia do novo ano cristão que Tuíra chorou forte ao ter as orelhas e a boca furadas para que soubesse falar e ouvir com sabedoria. Calou-se chupando o seio da mãe

numa fome farta. Encheu-se do leite da vida e após ser examinada pela enfermeira dormiu vagamente, por horas a fio.

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