3.5.11

Manhã no KM 6

Sentia o deslizar tranqüilo do pneu do carro no asfalto enquanto Almir Sater falava de sua “meiga senhorita”, e com a mão esquerda tentava acertar o momento da transição de cada marcha e sempre que eu errava o tempo aquele homem de barba por fazer o tom sério me encarava com um ar de reprovação que mais parecia uma piada que uma lição de moral propriamente dita.
Vez ou outra o pneu entrava em um dos buracos da estrada e logo um xingamento podia ser escutado pela inevitável revisão que o automóvel deveria ter de passar ao completar determinada quilometragem.
_Eles sempre inventam alguma coisa cara pra gente pagar.
_ O tal do peito de aço já quebrou um monte de vezes.
_ É a rebimbeta da parafusela!!!
Então riamos um riso frouxo, levado pelo vento que corria por nossos rostos suados mediante o calor que fazia na cidade. Olhando pro painel rapidamente pude ver o relógio marcar 8:45.
_ A gente saiu tarde hoje.
_A noite foi cansativa né?
_ Excitante.
Entramos na rotatória do quilometro seis e um ônibus grande estava congestionando o transito, muitos dos passageiros já haviam descido e não pareciam felizes pelo imprevisto, outras tantas pessoas cruzavam apressadas o pequeno terminal rodoviário.
Mulheres vistosas com seus vestidos curtos e maquiagem carregadas de amor pra dar e vender balançavam seus cabelos ao vento das carretas que passavam e deixam uma buzinada como elogio ás belezas da terra.
As portas do comercio já estavam levantadas e além das contas que tínhamos a pagar levávamos com a gente o conhecimento empírico sobre o lugar que vivíamos, seu povo, costumes e vielas, seus terminais e suas prostitutas.
Eram rosas, bancos e portas, eram Palomas, Geremias e Franciscos, meninos, meninas e deficientes, misturados aos sacos de farinhas e as bugigangas do paraguay. Éramos nós, a pista e o sol, num vapor de umidade que subia do rio e nos molhava deixando todos com os corpos brilhosos de suor que refletiam na manhã.

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